Redes de RSE

Redes Sociais e Empresariais de Responsabilidade Social
(texto atualizado pelo Bart Slob em janeiro de 2008)

As redes sociais são sistemas que reúnem indivíduos e organizações em torno de objetivos ou temáticas comuns.

Sua dinâmica de trabalho é a colaboração e a participação, marcada por estruturas flexíveis e relações horizontais.

As redes são uma característica dos movimentos sociais contemporâneos, que tiveram nas tecnologias de comunicação um importante impulso nas últimas décadas, ampliando suas ações em escala global, permitindo a troca de informações, a busca de soluções e conhecimentos compartilhados.

A organização em redes contribui também com o movimento da responsabilidade social empresarial, influenciando ações e o debate ideológico em torno do tema.

Historicamente, empresas norte-americanas e européias foram pioneiras na criação de redes corporativas com o objetivo de estimular o mundo empresarial a adotar a responsabilidade social em seus negócios.

Uma das primeiras redes empresariais no nível nacional foi a Business for Social Responsibility (BSR), criada em 1992, nos Estados Unidos, inicialmente com 50 empresas associadas. Em vários países europeus fundaram-se associações empresariais no início da década de 1990. O movimento chegou à América Latina com a criação da organização Peru 2021, em 1994, mas só ganhou amplitude nos anos seguintes com a chegada de outras organizações, que criaram vínculos entre si, como:

  • Cemefi, no México e o Instituto Ethos, no Brasil, em 1998.
  • Ação Empresarial do Chile, em 1999.
  • Fundemas, em El Salvador, e Deres, no Uruguai, em 2000.
  • Instituto Argentino de Responsabilidade Social Empresarial (Iarse), em 2003.

Ao mesmo tempo, redes empresariais se organizaram internacionalmente.
Algumas destas redes são:

  • World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) - Criada em 1991, reúne hoje aproximadamente empresas de mais de 35 países de 20 setores industriais. Além disso, dispõe de uma rede de 50 conselhos vinculados a organismos internacionais, universidades, ONGs e fundações, com o objetivo de
    compartilhar experiências e promover lideranças no meio empresarial que estimulem o desenvolvimento sustentável em seus países ou regiões. Ao associarem-se, as organizações têm acesso às “melhores práticas” de gestão socioeconômica e ambiental adotadas no mundo inteiro. As atividades do WBCSD baseiam-se na idéia de que o desenvolvimento sustentável faz bem para os negócios e que os negócios fazem bem para o desenvolvimento sustentável. www.wbcsd.org.

  • CSR Europe – Organização criada em 1996, reúne atualmente integrantes em 18 países europeus. Sua missão é ajudar empresas a alcançarem rentabilidade, crescimento sustentável e progresso humano, ao fazer da RSE uma prática corrente nos negócios. www.csreurope.org
  • Forum Empresa – Define-se como uma aliança de organizações empresariais de RSE que promove a responsabilidade social empresarial pelas Américas. Criada em 1997, com sede em Santiago, no Chile, sua função é congregar lideranças dos países americanos para fortalecer o papel da RSE. Atualmente reúne membros de 20 países: Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, El Salvador, Estados Unidos, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai, Venezuela, Costa Rica, Bolívia, Porto Rico e Equador. www.empresa.org
  • Rede Interamericana de RSE – Fundada em agosto de 2003, a rede pretende produzir conhecimentos para acelerar a adoção de uma cultura de responsabilidade
    social que contribua para a competitividade e o desenvolvimento sustentável. Tem sócio-fundadores de 13 instituições em dez países americanos: Argentina, Brasil, Chile, El Salvador, Estados Unidos, México, Peru, El Salvador, Uruguai, Costa Rica.
    www.responsabilidadsocial.org.

Não podemos desprezar o papel das organizações da sociedade civil, que também formam redes e impulsionam as empresas a adotarem práticas responsáveis. Essa expansão tornou-se mais intensa nos últimos 30 anos por meio de movimentos liderados por ambientalistas, consumidores e trabalhadores, que cobram das empresas suas responsabilidades em relação a obrigações legais e deveres vinculados aos direitos humanos. Estes movimentos podem conduzir à criação de normas e aperfeiçoamento e controle das já existentes.

  • Amigos da Terra (Friends of the Earth) - Fundada em 1971 por quatro organizações da França, Suécia, Inglaterra e EUA, é a maior rede de grupos ecologistas do mundo. Atualmente são 70 unidades que reúnem cerca de cinco mil grupos de ativistas em todos os continentes. A Amigos da Terra Internacional organiza campanhas contra o domínio das grandes cor porações. Divulgam os temas sociais e ambientais mais importantes da atualidade e criticam o atual
    modelo econômico de globalização empresarial. Seu objetivo é apresentar soluções para criar sociedades justas e ambientalmente sustentáveis. www.foei.org

  • Campanha Roupas Limpas (Clean Clothes Campaign, também conhecida pela sigla CCC) – Iniciou suas atividades em 1989 na Holanda com o objetivo de melhorar as condições de trabalho do setor têxtil e de material esportivo mundial. Hoje a campanha trabalha ativamente em 11 países europeus (Áustria, Bélgica,
    França, Alemanha, Holanda, Espanha, Suécia, Suíça, Noruega, Itália e Reino Unido) formados por uma coalizão de sindicatos e cerca de 200 ONGs. www.cleanclothes.org/cccs.htm

  • BankTrack – É uma rede de 18 organizações da sociedade civil em 12 países (Argentina, Austrália, Bélgica, Brasil, França, Alemanha, Itália, Holanda, Espanha,
    Suíça, Reino Unido, Estados Unidos) que rastreia as operações do setor financeiro (bancos comerciais, investidores, companhias de seguro, fundos de pensão), seu impacto na sociedade e no meio ambiente. Sua finalidade é fazer com que essas operações contribuam para tornar as sociedades saudáveis e justas, preservando o bem-estar ecológico do planeta. Os membros da BankTrack pretendem contribuir com o setor financeiro para que este melhore suas práticas. www.banktrack.org

Recentemente, redes de ONGs e sindicatos têm se estruturado para promover pontos de vista críticos em relação à RSE. Uma delas é a Plataforma da RSE da Holanda (www.mvoplatform.nl), fundada em 2001. Atualmente, a Plataforma reúne 35 organizações da sociedade civil. Em 2002, foi constituída na Inglaterra a Core Coalition (www.corporate-responsibility.org), que hoje reúne cerca de 130 ONGs, sindicatos, empresas e instituições de ensino. A Core Coalition pretende transformar em lei parâmetros de responsabilidade social das empresas, por acreditar que a adesão voluntária a estas práticas não é suficiente para garantir os direitos das partes interessadas. Na Espanha e no Chile surgiram iniciativas similares.

Na Espanha, o Observatório da RSC (www.observatoriorsc.org) é uma associação que integra 14 organizações da sociedade civil e que pretende ser uma rede que incentive a participação e cooperação entre organizações sociais que trabalhem com a responsabilidade social sob diferentes pontos de vista. Seu objetivo é fazer com que o conceito da responsabilidade social não se desvirtue. No Chile, existe uma rede chamada Grupo RSE constituído por nove organizações.

Estas redes de organizações da sociedade civil progressivamente constituem alianças internacionais, entre as quais já podemos destacar:

  • Red Puentes – Da Red Puentes, formada em 2002, participam 52 ONGs e organizações sindicais do México, Argentina, Brasil, Chile, Uruguai, Peru, Espanha
    e Holanda. A Red Puentes quer promover a RSE na América Latina pela ótica da sociedade civil. www.redpuentes.org

  • Rede Ibero-americana de Meios e Profissionais de RSE – Lançada durante a III Conferência Interamericana sobre Responsabilidade Social Empresarial, organizada
    pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), no Chile, em setembro de 2006.

  • OECD Watch – É uma rede internacional, formada em 2003, que informa ONGs nos cinco continentes sobre as políticas e atividades da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico e põe à prova a eficiência das Diretrizes da OCDE para empresas multinacionais. É composta por 78 organizações.
    www.oecdwatch.org

  • Coalizão Européia para a Justiça Corporativa (European Coalition for Corporate Justice - ECCJ) – É uma rede européia, com sede em Bruxelas, composta por 16 redes nacionais de organizações da sociedade civil. Todas estas redes trabalham com o tema da RSE. A ECCJ realiza atividades de lobby para conseguir que a União Européia crie leis para regular a responsabilidade social das empresas. www.corporatejustice.org

A formação destas redes revela a polêmica em torno da responsabilidade social e os melhores caminhos para que a empresa possa atingi-la. Este debate reflete-
se na ação destas redes, sendo possível estabelecer algumas diferenças, entre elas:

Redes empresariais
• têm o hábito de destacar a natureza “voluntária” da RSE;
• pontuam a RSE como estratégia empresarial para ter mais lucro e perenidade;
• enfatizam as boas práticas e atribuem prêmios;
• têm uma presença forte nos meios de comunicação

Redes da sociedade civil
• defendem a criação de um marco legal para a RSE;
• revelam também as práticas negativas;
• responsabilizam as empresas pelo impacto de suas cadeias de produção;
• cobram a relação que a RSE deve ter com a atividade básica da empresa; têm dificuldade nos contatos com os meios de comunicação convencionais (televisão, rádio, jornais, revistas etc.).

Referência
Este texto é traduzido e adaptado de um documento escrito por Bart Slob:
B. Slob, “Las redes y la responsabilidad social empresarial: experiencias de Europa y de las Américas” in M.L. Álvarez Durante et al., La responsabilidad social corporativa de la empresa española en Latinoamérica: el caso del sector financiero (Madrid: Entinema, 2006), p. 67-74.