ETHOS

A construção de um novo modelo de desenvolvimento
Há alguns anos, responsabilidade social empresarial ainda se confundia com investimento social privado. Era necessário explicar que se tratava de um estágio superior de gestão e, não raro, esta explicação caía no vazio, porque faltavam ferramentas que dessem consistência e credibilidade a esta forma de administração.

Estes instrumentos foram, de fato, sendo elaborados em paralelo ao debate. Na medida em que os temas avançavam, novos indicadores ou relatórios surgiam para dar conta dos vários aspectos da gestão socialmente responsável. Hoje, existe um sem-número de ferramentas e instrumentos de gestão, refletindo princípios e iniciativas que apareceram no mundo inteiro.

Eles também representam a consolidação e a materialização do movimento da responsabilidade social empresarial, por fazer com que a sociedade civil organizada – setores empresariais, sistema multilateral, setores governamentais e sistema financeiro – se reúnam para discutir o que é uma empresa sustentável e quais são as bases mínimas de referência necessárias para uma gestão socialmente responsável e sustentável.

Este é um fenômeno do mundo globalizado. Não foram as Nações Unidas que convocaram esse grupo e tampouco iniciativas nacionais. Foi a consciência crescente e cada vez mais ansiosa de que não é mais possível viver num mundo cujo modelo insustentável está levando a civilização e a vida do planeta a uma ameaça de extinção como nunca se imaginou.

Essa inquietação, essa indignação de setores inteiros das mais diversas sociedades, dos mais diversos movimentos levaram a uma união em torno da construção de ferramentas que mostram aos administradores que a gestão socialmente responsável é uma necessidade, não mais uma opção. Tais ferramentas também induzem a que os gestores se reeduquem numa visão de administração sistêmica, que exige a prática do relacionamento com todas as partes interessadas e reconhece que a atividade empresarial deve gerar valor além do valor e do resultado financeiro, conduzindo a empresa a um outro patamar – ao de agente da transformação social.

No ano 2000, o Protocolo de Kyoto parecia representar a grande convergência dos países por um modelo mais sustentável de economia, via redução da emissão de carbono e diminuição do aquecimento global. Sete anos depois, verificou-se que, mesmo se todos os países tivessem assinado o compromisso àquela época, o impacto sobre o aquecimento global não teria sido maior do que 11%.

Estamos diante de um dos maiores desafios que a humanidade já enfrentou. Cada momento perdido nos expõe e toda a vida no planeta a riscos exponenciais, porque não prestamos atenção suficiente e adequada aos avisos que chegaram até nós ao longo dos anos.

Por isso, hoje, a comunidade empresarial e os governos têm uma grande responsabilidade: forjar outro modelo de desenvolvimento, um modelo que não só possa mitigar as conseqüências do aquecimento global, como também oferecer à humanidade e ao planeta uma alternativa de desenvolvimento real, de sociedade justa, inclusiva e ambientalmente amigável. Essa é a responsabilidade que todos temos.

Há alguns anos, essa sociedade sonhada poderia até ser considerada utópica e irrealizável. Ainda era possível argumentar que não havia condições para torná-la real. Hoje, já sabemos que é possível mudar. O próprio modelo de desenvolvimento, que produziu o desastre que todos estamos prestes a enfrentar, também engendrou as condições objetivas e subjetivas, a consciência e as tecnologias que permitirão à humanidade operar a transformação necessária e urgente para a sobrevivência da espécie. Nossa obrigação é aprender a lidar com esse novo ferramental e trilhar o único caminho possível para o futuro, que é o da construção de um modelo de desenvolvimento sustentável.

A sociedade brasileira — e os empresários em particular, por representarem um dos setores mais poderosos e organizados — tem um papel fundamental a desempenhar na construção desse novo modelo, pelas condições que nosso país oferece em termos de recursos naturais, densidade populacional e avanços do próprio movimento de responsabilidade social empresarial. Os brasileiros precisam, no entanto, conscientizar-se das responsabilidades do Brasil com relação aos impactos sobre o planeta. Nosso país é grande em extensão territorial, em recursos minerais, em biodiversidade, assim como o continente sul-americano. Qualquer solução bem-sucedida por aqui tem potencial para se tornar um exemplo aos demais países.

As empresas que elegeram a responsabilidade empresarial como estratégia de negócio são pioneiras. E, nos dias atuais, desempenham um papel de motor da transformação social. Certamente, terão reconhecimento do mercado e da própria História. Afinal, ao adotar a gestão socialmente responsável, essas empresas decidiram mudar o curso das coisas. No curto ou médio prazo farão a diferença necessária para que cheguemos ao ano 2050 sãos e salvos.

Ricardo Young - Presidente-Diretor do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social

ETHOS
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Fundado em 1998 e idealizado por empresários e executivos oriundos do setor privado, o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social é uma organização não-governamental criada com a missão de mobilizar, sensibilizar e ajudar as empresas a gerir seus negócios de forma socialmente responsável, tornando-as parceiras na construção de uma sociedade sustentável e justa. O Instituto Ethos é um pólo de organização de conhecimento, troca de experiências e desenvolvimento de ferramentas que auxiliam as empresas a analisar suas práticas de gestão e aprofundar seus compromissos com a responsabilidade corporativa.